A autoridade, o desejo e a alquimia da política: linguagem e
poder na constituição do papado medieval (1060-1120)
As palavras ressoaram amargas aos ouvidos do velho bispo.
Eram secas, ásperas, de uma rispidez cortante. Formavam um tipo de som rude e
sem concerto. Ele acreditava que jamais ouviria o nome de um ministro da fé, um
eleito para o alto grau do episcopado, ser proclamado em falas como aquelas.
Sobretudo, o seu próprio nome. Filho da aristocracia veronense e ilustre
benfeitor de igrejas e monastérios, o bispo de Parma não imaginava que
escutaria alguém se referir a ele como o homem que "universalis ecclesia
tanquam loetale virus evomuit, ut revera putridum membrum de propriis
visceribus amputavit, in geennalis baratri profunda demersit, et quasi stercus
hominum intra latrine obrutum obstruxit" (a Igreja universal vomitou
como veneno mortal, amputou de suas próprias vísceras como um órgão pútrido,
mergulhou em um profundo poço infernal e escondeu em uma latrina como se fosse
excremento de homens).
Leste da Gália, sessenta anos depois. A busca de duas ordens
religiosas pela pureza da vida monástica prosseguia pela correspondência
trocada entre um abade e um prior. Insatisfeitos com um acentuado formalismo
ritual e uma excessiva ornamentação exterior da fé, Bernardo, abade de
Clairvaux, e Guigo, prior da Grande Cartuxa, encorajavam-se mutuamente a
persistir nos votos de guiar os monges para o encontro com a misteriosa voz
celestial que se entrega aos ouvidos somente no isolamento e no silêncio do
claustro. Mas, para levar essa obra adiante, alertou Bernardo a seu
interlocutor, seria preciso conhecer os tipos humanos. Pois - prosseguia o
abade em suas cartas - a existência terrena diferencia aqueles que nascem
iguais e vêm ao mundo indistintamente, à imagem e semelhança de Deus. Ela marca
seus corações, confunde seus espíritos e isso faz da tarefa de discipliná-los
um fardo insuportável. Há aqueles que amam a Deus por que o consideram bom.
Estes são os verdadeiros filhos, reconhecem a face do Pai e rendem-lhe orações
e boas obras; sabem que praticar a caridade é estar em comunhão com a vontade
divina. Porém, existem os que amam a Deus por que ele é poderoso. Estes são
escravos em suas consciências, estão dominados pelo apego a si mesmos e seu
amor não passa de um temor pela própria integridade. Por fim, dizia Bernardo,
há uma terceira categoria de homens: os que amam a Deus por que ele se mostra
bom para eles. Estes enxergam no Pai somente alguém que lhes traz vantagens.
Seus olhos são sensíveis às aparências, seus corações impenetráveis para a fé.
Saciar os próprios interesses é o único princípio que reconhecem.
Segundo o notório cisterciense, através da capacidade de
desejar realiza-se na alma a comunhão existencial almejada pelo próprio criador
desde as origens. E quando Deus se afasta de seu rebanho, desamparando-o, ele,
na realidade, age da forma mais eficaz para atiçar a sensação de falta, de
privação, isto é, para mover as engrenagens do desejo: nempe qui idcirco
recedit ut avidus requiratur, quonam modo, si abesse nescitur, quiritur? (por
esta razão ele [o Espírito Santo] se retira, para ser desejado mais avidamente:
de que modo poderíamos sentir sua presença, se não ansiássemos por sua
ausência?).Por certo - continuava Bernardo - Deus se revela ao gênero humano
desde o tempo dos patriarcas.
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